Arquitetura afetiva: quando o espaço abraça a história

Arquitetura afetiva: quando o espaço abraça a história

27/11/2025 0 Por Livia Rosa Santana

Memórias familiares e culturais norteiam muitos projetos, diz a arquiteta Dorys Daher

O encontro entre a técnica e a memória, entre o presente e o passado, entre quem somos e de onde viemos. Assim é a chamada Arquitetura Afetiva, que parte do princípio de que os espaços não são apenas funcionais ou estéticos, mas carregam emoções, lembranças, ancestralidades e identidades culturais.

Para a arquiteta Dorys Daher, tudo na Arquitetura Afetiva é levado em conta. “Projetos nessa linha entendem que certos materiais, formas, cores e proporções acionam lembranças profundas, como a casa da infância, a cultura da família, a cidade natal, viagens marcantes, ou até símbolos de uma espiritualidade”, diz a profissional, que está à frente do conceituado Escritório DG Arquitetura (www.dgarquitetura.com.br), no Rio de Janeiro.

Há elementos arquitetônicos que funcionam como “disparadores de memória”, já que muitos deles têm força quase imediata em evocar histórias. “Os arcos árabes e mouros, por exemplo. Eles remetem a heranças mediterrâneas, ao artesanato manual, às geometrias sagradas. Criam sensação de suavidade, acolhimento e espiritualidade”, pontua Dorys. “Assim como as janelas coloniais, que evocam o Brasil antigo, a vida nas cidades históricas, o ritmo lento das ruas de paralelepípedos. São símbolos de respiro, enquadramento da paisagem e diálogo com a cidade”.

Outros quesitos, como o pé-direito alto nas construções (remetendo às casas antigas, “das avós”, às salas de estar como espaços de convivência, gerando amplitude, nobreza, luz e uma sensação quase cerimonial); azulejos (que carregam memórias portuguesas, árabes e brasileiras); ou mesmo ao uso de madeiras naturais. “Estas trazem o cheiro, o toque e o calor da casa familiar; um material que envelhece junto com o morador, criando novas camadas de história”, acrescenta a arquiteta.

Outros elementos que trazem afetividade às construções são os cobogós, muxarabis, tramas (que filtram a luz, a partir de técnicas artesanais, “privilegiando privacidade com poesia”). Para não resvalar no nostálgico literal, a chave é o equilíbrio: o uso de elementos que contam história, mas dentro de uma linguagem atual, leve, fluida, com materiais e técnicas da atualidade.

“A Arquitetura Afetiva funciona como uma composição emocional: são certos cheiros, sons, jogos de luz e sombra, texturas rugosas ou lisas, e até eco e silêncio”, avalia Dorys Daher, pois “criam um ambiente que dialoga profundamente com o indivíduo”, segundo ela, o espaço passa a ser lido com o corpo, não apenas com os olhos.

Essa linha da arquitetura vê a cultura como matriz projetual, já que quando o projeto considera a história do cliente, da região e da família, ele ganha alma. A casa afetiva, então passa a ter valor também como cura e pertencimento. Em um mundo rápido e cheio de estímulos, os espaços afetivos funcionam como refúgio emocional, estabilizador psicológico, estímulo criativo e a continuidade da própria narrativa pessoal.

“Arquiteturas assim acolhem, diminuem ansiedade, aumentam sensação de segurança e identidade. Isso porque o morador olha para o ambiente e se reconhece ali. E muitas vezes a sutileza está no detalhe, onde mora a emoção: a maçaneta igual à da casa da infância, a prateleira pensada para objetos com valor emocional, o banco de madeira que remete às histórias da família, ou a iluminação quente que reproduz a luz do final da tarde na casa da avó. Essas escolhas são silenciosas, mas profundamente potentes”, conclui a arquiteta Dorys.

Fotos: Divulgação
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Uso de claraboia, valorizando a inclinação do telhado, remetendo às casas com telhado aparente

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Utilização de madeira natural tratada para com o intuito de resgatar materiais naturais