Rosane Guimarães fala sobre desenvolvimento de vacinas contra Covid-19

Rosane Guimarães fala sobre desenvolvimento de vacinas contra Covid-19

26 de julho de 2020 0 Por Francisco

Expectativa é que Brasil produza nacionalmente no 2º semestre de 2021

Pesquisadores da Fiocruz apostam em vacinação inicial contra a Covid-19 em fevereiro de 2021 para um público específico. A partir daí, a produção nacional das doses poderá garantir imunização à população em geral, explica Rosane Cuber Guimarães, vice-diretora de Qualidade da Bio-Manguinhos (Fiocruz), em entrevista ao Impressões.

Os recentes resultados de pesquisas da Universidade de Oxford, no Reino Unido, sobre a segurança da vacina contra a Covid-19 elevaram o nível de otimismo em todo o mundo, que, desde dezembro do ano passado, observa o alastramento do novo coronavírus em todas as regiões. As pesquisas das fases 1 e 2, exigidas pelo procedimento científico, descartaram efeitos adversos graves provocados pela vacina. Foram registrados relatos de pequenos sintomas, como dores locais ou irritabilidade, aceitos em vacinas contra outras doenças.

Katiuscia Neri entrevista Rosane Cuber Guimarães, da Bio-Manguinhos/Fiocruz
Katiuscia Neri entrevista Rosane Cuber Guimarães, da Bio-Manguinhos/Fiocruz – Divulgação

O Brasil foi um dos países escolhidos para participar da fase 3 dos estudos que testam a eficácia da vacina. A testagem, que está a cargo da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e outras instituições parceiras, envolve cinco mil voluntários de São Paulo (SP), Rio de Janeiro (RJ) e Salvador (BA). A expectativa é detectar a capacidade de imunização das doses e, a partir daí, a Fiocruz – parceira brasileira nas pesquisas de Oxford – recebe autorização para importar o princípio ativo concentrado, que será convertido em iniciais 30 milhões de doses a serem aplicadas em parcela da população brasileira.

A vice-diretora de Qualidade do Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-Maguinhos/Fiocruz), Rosane Cuber Guimarães, contou nessa edição do Impressões que, a partir de dezembro deste ano, o Brasil já receberá 15 milhões de doses e, em janeiro de 2021, outros 15 milhões.

“A gente está recebendo agora apenas 30 milhões de doses porque a gente precisa, antes de liberar a vacina, ter certeza da comprovação da eficácia dela. Então nós adquirimos 30 milhões de doses no risco e, se ela se comprovar eficaz, vamos receber mais 70 milhões de doses, totalizando, para o país, neste primeiro ano, 100 milhões de doses de vacinas”, esclarece.

A Bio-Manguinhos será responsável por transformar o princípio ativo, fazendo a formulação final das vacinas, além de envasar, rotular e entregar o material para que o Programa Nacional de Imunização do Ministério da Saúde faça a distribuição. As primeiras doses devem ser destinadas aos grupos de risco, como profissionais de saúde e pessoas idosas, mas isto ainda está em debate.

Caso as previsões se confirmem, a expectativa é que o país passe a produzir nacionalmente a vacina a partir do segundo semestre de 2021. “Paralelo a isto, a gente precisa avaliar se será necessária apenas uma dose da vacina, se serão necessárias duas doses, se será necessário revacinar. São perguntas que a gente ainda não tem as respostas. Os estudos vão continuar”, explica a doutora em Vigilância Sanitária.

Rosane Guimarães disse ainda que a vacina está em um excelente caminho e avançou rapidamente porque Oxford já trabalhava com o mesmo adenovírus de chimpanzé que está sendo utilizado nas pesquisas, um vírus que não causa doença em seres humanos. Segundo ela, a vacina carrega uma sequência do RNA do coronavírus e da proteína spike, que pode garantir que um organismo produza anticorpos. “Eles fizeram testes nessa plataforma [utilizando esse princípio] para Mers [síndrome respiratória do Médio Oriente] e para Ebola. Eles já tinham uma grande parte do que é necessário para a produção da vacina preparado. Isto já foi um acelerador. Outra coisa é que, neste momento de pandemia, os estudos clínicos foram facilitados e houve a colaboração entre os países”, afirma.

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Mesmo com os indicativos positivos, Rosane alerta que a pandemia não será resolvida de uma hora para outra. “A gente acredita que, em 2021, a gente ainda não consiga vacinar completamente toda a população. Nossa orientação é que enquanto a vacina não sai ou ainda estiver sendo aplicada, que as pessoas mantenham as mesmas orientações que já existem hoje: uso da máscara, lavar as mãos, evitar aglomeração, distanciamento. A gente ainda vai ter que continuar convivendo com esses cuidados até que todas as respostas sejam dadas pela vacina”, alerta.

A possibilidade de um revés é praticamente descartada pela pesquisadora. Segundo ela, a fase 3 dos estudos pode sim apontar um grau de imunização de mais de 90%, mas há riscos de que essa eficácia atinja níveis de apenas 50% ou 70%.

“Vamos ter que fazer mais estudos e talvez buscar uma vacina com potencial maior. Mas já é um alento se tivermos uma vacina com mais de 70%”, pondera.

Atualmente, o Brasil é terreno fértil para a pesquisa por ocupar o segundo lugar entre os países com maior número de casos da Covid-19. Existem outras empresas que estão trazendo novas vacinas, um exemplo é a pesquisa desenvolvida pela parceria entre o Instituto Butantan e a empresa chinesa Sinovac, com sede em Pequim, na China. Nas próprias instalações da Bio-Manguinhos, cientistas brasileiros também estão desenvolvendo outros dois estudos, ainda em fase pré-clínica, com experimentos em animais.

Fonte: EBC Agência Brasil