Como foi a formação da melhor seleção de todos os tempos

Como foi a formação da melhor seleção de todos os tempos

21 de junho de 2020 0 Por Francisco

O livro Escola Brasileira de Futebol, de minha autoria, conta nos dois primeiros capítulos como começou a nascer a melhor seleção da história das Copas do Mundo

Seleção de 1970 — Foto: CBF

O MAIOR TIME DA HISTÓRIA

A escola brasileira é linha de quatro homens na defesa, marcação por zona e toque de bola (Carlos Alberto Parreira)

A seleção brasileira encerrou sua atividade oficial em 1969 no dia 31 de agosto. No mesmo dia do afastamento de Costa e Silva da presidência da República por problemas de saúde, o Brasil enfrentou o Paraguai no Maracanã.

Seleção de 1970 — Foto: CBF
Seleção de 1970 — Foto: CBF

Nunca houve tanta gente pagando ingresso em nenhum estádio do mundo. Eram 183.341 torcedores para o jogo que classificaria a seleção para a Copa do Mundo de 1970, com seis vitórias em seis partidas contra Colômbia, Venezuela e Paraguai.

O gol da classificação foi marcado por Pelé depois de curta troca de passes. A bola chegou a Tostão na entrada da área. O craque do Cruzeiro dominou de costas para o gol e viu Edu infiltrando-se por trás da defesa do Paraguai. O passe deixou o ponta-esquerda do Santos de frente para o goleiro Aguilera, do Paraguai. No rebote, Pelé marcou.

Assistir àquela jogada como normalmente as emissoras de televisão mostram dá a noção de um contra-ataque rápido. Não era. Não havia o cuidado da posse de bola. A obsessão de Josep Guardiola não era o princípio fundamental do jogo do Brasil. A lógica da seleção era o prazer.

No começo da partida, Piazza recebeu uma bola no meio-de-campo. Sem opção de passe, lançou-a diretamente para a grande área. A defesa paraguaia rebateu. O Brasil esbarrou na defesa bem estruturada do Paraguai até encontrar o espaço aos 33 do segundo tempo.

Trocava passes, tentava tabelinhas, mas ficava no muro de proteção armado pelos paraguaios.

Quatro dias depois da vitória magra, por 1 x 0, sobre o Paraguai, com a garantia de disputar a Copa do Mundo a partir de maio de 1970, a seleção de João Saldanha fez seu último jogo de 1969 contra a seleção mineira. Perdeu por 2 x 1.

No mês seguinte, a cúpula da preparação física da CBD reuniu-se para um período de discussões sobre o Mundial do México. As reuniões aconteceram na escola de educação física, no bairro carioca da Urca. “Não tinha nada a ver com apoio aos militares, mas o Cláudio Coutinho era capitão e tínhamos acesso às instalações”, diz Carlos Alberto Parreira.

As conversas eram sobre como fazer o histórico jogo brasileiro vencer o preparo físico dos europeus, síntese do jogo físico campeão com a Inglaterra em 1966. Durante uma semana, os preparadores físicos Admildo Chirol e seus assistentes Cláudio Coutinho e Carlos Alberto Parreira, com auxílio de convidados como o professor Lamartine Pereira conversaram sobre as condições a serem encontradas no México, em 1970.

Os jogos seriam disputados ao meio-dia, havia a altitude da Cidade do México a ser superada e a necessidade de fazer Pelé, Gérson, Tostão e Jairzinho fazerem seu jogo ser insuperável, diferente do que houve na Inglaterra, onde a velocidade e a violência fizeram parte do cardápio indigesto para os brasileiros.

A tecnologia era precária, mas câmeras de Super 8 foram usadas para analisar como jogavam os europeus. A Copa de 1966 marcou o nascimento do 4-4-2. Congestionamento do meio-de-campo, com os dois pontas voltando, um de cada lado. Nasciam as duas linhas de quatro homens e a Inglaterra soltava apenas seus dois atacantes, Hurst e Hunt, mais próximos à grande área.

A Copa de 1966 mudou o conceito do futebol. “Foi quando nasceu o ‘play and do not play’”, diz Carlos Alberto Parreira, parte da comissão técnica da seleção de João Saldanha e depois de Zagallo. Jogar e não deixar jogar.

O Brasil estava acostumado a outro estilo. Na Copa de 1958, Garrincha dominava a bola, olhava fixo nos olhos de seu marcador, fingia dar o drible, parava e avançava em seguida em direção à linha de fundo.

O mesmo jogo que se aprendia nas ruas, praias e campos de várzea podia ser aplicado numa Copa do Mundo. O preparo físico era menor, corria-se menos, fechavam-se menos os espaços. Em 1962, a seleção ganhou o mundial com seis titulares acima dos 30 anos. A Copa era pura técnica e habilidade.

Em 1966, a história mudou.

O Brasil saiu da Inglaterra discutindo seu estilo de jogo. Culpou a violência dos portugueses, a articulação política dos ingleses, tudo menos a incapacidade de planejar e executar seu plano de jogo.

O diagnóstico do fracasso apontou para a convocação de 47 jogadores na fase final da preparação. Pouca gente se lembra de que em 1962 havia 41 convocados e deu certo. Durante o Mundial, 20 dos 22 inscritos entraram em campo, um erro. Em 2002, 21 dos 23 chamados disputaram pelo menos um minuto da Copa, na Ásia.

O pecado da desorganização conviveu com a dificuldade para entender o novo tipo de jogo, especialmente diferente nas temperaturas amenas do verão inglês.

O Brasil saiu da derrota em Liverpool chocado com seu desempenho ridículo, mas sem estudar o que havia acontecido. A seleção só voltou a jogar quatro amistosos em 1967, com dois técnicos diferentes, e a sério mesmo apenas em julho de 1968.

Só em 1969 definiu João Saldanha como o técnico para as eliminatórias. Tudo diferente do que se fazia na Europa. A estreia de Saldanha aconteceu em abril de 1970, com os onze titulares anunciados em sua primeira entrevista: Félix, Carlos Alberto, Brito, Djalma Dias e Rildo; Piazza, Gérson e Dirceu Lopes; Jairzinho, Tostão e Pelé.

Em teoria, era a mais pura escola brasileira. Veja que o time não tinha ponta-esquerda nem centroavante. A lógica era partir para cima. Se somos melhores do que eles, eles que se defendam…

Diferente do que se costuma pensar sobre partidas em que o Brasil fazia isso, o primeiro amistoso foi contra o Peru e extremamente difícil. A seleção peruana era muito talentosa, com Cubillas, Gallardo e Mifflin, mas ninguém pensava assim antes da vitória sofrida, por 2 x 1, no Beira Rio.

No segundo compromisso, também contra o Peru, Saldanha trocou Dirceu Lopes por Edu e Tostão por Paulo Cezar Caju quando a seleção perdia por 2 x 0. Virou para 3 x 2 com um ponta-esquerda natural.

O time das eliminatórias era menos de posse de bola e mais de agressividade. Jogava quase num 4-2-4, com Jairzinho de um lado, Edu de outro, Tostão e Pelé na frente, Piazza e Gérson no meio-de-campo.

Não era da troca de passes, embora a bola passasse de pé em pé quando era necessário. Como no gol da classificação no Maracanã lotado, contra o Paraguai.

Era bem diferente a formação de Zagallo, depois da queda de Saldanha em março de 1970.

A Copa do Mundo começou no dia 31 de maio e João Saldanha foi o treinador até o dia 15 de março. Se os 47 convocados de 1966 foram justificativa para a derrota, imagine a troca de treinador em cima da Copa.

A diferença é que foi um sucesso.

Em parte, porque o planejamento começou na Urca, com a comissão técnica que pensava em entender as condições climáticas e geográficas do México, o novo tipo de jogo que havia nascido na Inglaterra e como fazer a escola brasileira se destacar nessas circunstâncias.

As filmagens em câmeras super 8 produziram vídeos sobre os times que mais poderiam ameaçar o Brasil na Copa de 70. Ao mesmo tempo, detalhamento físico dos jogadores brasileiros. Quando Zagallo assumiu a seleção, em março, o plano para a viagem à Copa do Mundo estava pronto.

“Quando mostramos aos jogadores o planejamento, eles foram muito receptivos. Perceberam que havia um plano para que jogassem o máximo e se preparassem para a nova realidade apresentada pelo futebol mundial”, diz Parreira.

CAPÍTULO 2

AO ATAQUE!

Em onze partidas da seleção sob o comando de João Saldanha, o Brasil marcou 32 gols. Esta conta exclui os jogos contra seleções regionais, como a sergipana. Inclui seleções nacionais, entre a estreia contra o Peru e a despedida vencendo a Argentina.

Foram quase três gols por partida. Nada mais futebol brasileiro do que buscar o gol.

Com Zagallo, da estreia à final da Copa do Mundo, também foram onze partidas, contabilizadas apenas as partidas contra seleções principais, como recomenda a estatística da Fifa no século 21.

O melhor time da história do futebol era menos goleador do que a seleção de João Saldanha. Claro que é necessário relativizar os adversários. O Brasil de Saldanha venceu as eliminatórias contra Colômbia, Venezuela e Paraguai e teve como principal adversária nos amistosos a seleção peruana.

A seleção de Zagallo foi eleita a melhor equipe da história do futebol pela revista World Soccer por ter vencido a Copa do Mundo. Na campanha, ganhou os seis jogos, fez 19 gols, passou por Inglaterra, Uruguai e Itália, todos campeões do mundo. Para alguns torcedores da época, vingou a derrota de 50 ao eliminar os uruguaios na semifinal.

Na história dos mundiais, foi o segundo melhor ataque do Brasil, só atrás da seleção vice-campeã mundial de 1950, autora de 22 gols em seis partidas.

Apesar de tudo isso, Zagallo assumiu a seleção com um discurso diferente. Ouvia os preparadores físicos e adaptava o que diziam a seus conceitos de futebol.

Depois de ser bicampeão mundial, Zagallo começou a carreira de técnico. Dirigiu os juvenis do Botafogo e chegou ao time principal em 1967. Os alvinegros festejaram nos dois anos seguintes o que se chamou de Bibi – bicampeão carioca e bi da Taça Guanabara, torneio independente do estadual.

Na decisão que valeu o bicampeonato carioca, seu time recuou e apostou na capacidade de Gérson lançar para Jairzinho infiltrar-se e ganhar em velocidade dos zagueiros para marcar.

Em contra-ataques mortais, o Botafogo venceu o Vasco por 4 x 0 e garantiu o segundo título carioca consecutivo.

O contra-ataque nunca foi apontado como uma característica tipicamente brasileira, mas muitas das mais belas jogadas da seleção de 1970 nasceram em contra-ataques mortais.

Zagallo reuniu-se com os jogadores antes de seu primeiro jogo como técnico da seleção brasileira, em março de 1970. Depois sentou-se com a comissão técnica e entendeu a elaboração do trabalho para o Mundial que se aproximava.

Parreira conta que a observação de Parreira sobre a sequência do trabalho foi de fazer o time competir com o mesmo preparo físico que os ingleses tinham. E tirar-lhes o espaço.

“Os europeus gostam de velocidade e de contra-ataque. Se recuarmos todos para marcar atrás do meio-de-campo, eles não saberão o que fazer”, disse Zagallo, segundo o relato de Parreira.

Não é raro perceber nos vídeo-teipes das partidas da Copa do Mundo de 1970, a seleção brasileira inteira atrás do meio-de-campo, quando os adversários tinham a bola. Gérson se aproximava de Clodoaldo, Rivelino voltava pelo lado esquerdo, Jairzinho voltava pela direita, Pelé recuava pela faixa central, Tostão ficava no círculo central.

“Tostão nunca foi um centroavante. Ele era um 10”, diz Parreira.

Cuidado para não propagar a lenda.

Dizem que a seleção de 1970 tinha cinco camisas 10. É mais justo dizer que havia cinco pontas-de-lança. Jairzinho era o camisa 10 do Botafogo, Gérson era o 10 do São Paulo, Pelé era 10 no Santos, Rivelino o 10 do Corinthians. Tostão era o camisa 8 do Cruzeiro. A função era semelhante, a camisa diferente.

Gérson foi 8 no Botafogo, quando Jairzinho vestia a 10. E o número da camisa não evitava que Gérson lançasse Jairzinho para gols espetaculares quando estavam juntos em General Severiano.

Mas a síntese era o talento e o desafio reuni-lo e premiá-lo. O melhor time da história, o maior símbolo do jeito brasileiro de jogar recuava para se proteger. A diferença era quando tinha a bola.

O futebol era tão diferente a ponto de tornar difícil a diferença exata entre contra-ataque e posse de bola, como caracterizado no século 21. Dos 19 gols da seleção brasileira, dez foram com a saída de bola desde o campo de defesa, com o adversário ainda não completamente postado, o que pode caracterizar o contra-ataque.

Mas a bola saía sem pressa, de pé em pé.

O clássico exemplo do estilo brasileiro é o gol de uma retormada de bola no campo de defesa. Em nove passes, 29 segundos, a seleção sai da linha da grande área defensiva, com toques curtos e precisos, até Carlos Alberto avançar pedindo a bola pelo lado direito.

Pelé recebe na linha central e à sua frente Tostão faz o sinal de que Carlos Alberto vem em velocidade.

O detalhe da jogada é quem roubou a bola. Voltando para marcar pela ponta esquerda, quem recuperou a bola trinta segundos antes da obra prima e deu o primeiro passe foi Tostão.

De certa forma, a seleção de 70 foi a mais pura síntese da escola brasileira. Ao mesmo tempo, abriu a porta para o que quatro anos depois se denominaria futebol total.